A Anistia Internacional publicou, nesta terça-feira (21), seu relatório anual sobre a situação dos direitos humanos em 144 países, no qual responsabiliza Estados Unidos, Israel e Rússia por conduzirem ações consideradas predatórias contra o sistema multilateral, o direito internacional e a sociedade civil.
Segundo Agnès Callamard, secretária-geral da organização, predadores políticos e econômicos, além daqueles que colaboram com essas ações, estariam determinando o colapso do multilateralismo não por sua ineficiência, mas porque esse sistema não serviria aos interesses de dominação e controle desses agentes.
“A resposta não é proclamar que o sistema é uma quimera ou que não há como consertá-lo, mas sim enfrentar seus fracassos, acabar com sua aplicação seletiva e continuar transformando-o para que seja plenamente capaz de defender todas as pessoas com a mesma determinação”, declarou Callamard.
O relatório denuncia que Israel prosseguiu com o que a Anistia classifica como genocídio contra a população palestina na Faixa de Gaza, mesmo após o acordo de cessar-fogo firmado em outubro de 2025. A organização sustenta que Israel mantém um regime de apartheid sobre o povo palestino, intensifica a expansão de assentamentos irregulares na Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental, e caminha para anexações definitivas.
De acordo com o documento, autoridades israelenses vêm tolerando ou incentivando, de forma crescente, ataques e atos de intimidação de colonos contra palestinos, sem punição, além de exaltarem e justificarem a violência, inclusive prisões arbitrárias e tortura de pessoas detidas.
A Anistia também aponta condutas dos Estados Unidos, que teriam realizado mais de 150 execuções extrajudiciais, incluindo bombardeios contra embarcações no Caribe e no Pacífico, bem como uma ação considerada agressiva em janeiro de 2026, quando sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.
O relatório menciona ainda que forças dos Estados Unidos e de Israel utilizaram força considerada ilegítima contra o Irã, contrariando a Carta das Nações Unidas, o que teria motivado ataques retaliatórios iranianos envolvendo Israel e países do Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo. Na mesma linha, Israel teria ampliado ataques militares contra o território libanês.
A Anistia destaca episódios como a morte de mais de 100 crianças em um ataque atribuído aos Estados Unidos contra uma escola no Irã, além de ofensivas devastadoras contra infraestruturas energéticas realizadas por diversas partes envolvidas. Conforme a entidade, tais conflitos comprometem a vida e a saúde de milhões de civis, ameaçando causar impactos de grande escala, previsíveis e duradouros sobre o meio ambiente, o acesso à energia, serviços de saúde, alimentação e água, tanto na região quanto em outras áreas do planeta.
No contexto europeu, a organização aponta que a Rússia intensificou ataques aéreos contra infraestruturas civis essenciais na Ucrânia.
A Anistia avalia que a União Europeia e a maioria dos países europeus mantiveram uma postura de condescendência diante das ações dos Estados Unidos contra normas internacionais e mecanismos multilaterais, sem agir de forma efetiva para conter as ações de Israel ou para interromper o fornecimento de armas e tecnologias utilizadas em crimes contra o direito internacional em diferentes partes do mundo.
No Brasil, o relatório da Anistia Internacional ressalta que a violência policial permaneceu como uma das questões mais graves. Em outubro de 2025, uma operação conjunta das polícias civil e militar do Rio de Janeiro em favelas resultou em mais de 120 mortos, em sua maioria pessoas negras em situação de vulnerabilidade social, com diversos relatos de execuções extrajudiciais. A "Operação Contenção", realizada nos Complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio, é apontada como a intervenção policial mais letal já registrada no estado.
Esse episódio, segundo a Anistia, reflete um padrão histórico no qual práticas policiais letais afetam desproporcionalmente comunidades negras e periféricas no Brasil, onde essa parcela da população segue sendo o principal alvo do uso excessivo da força estatal.
O relatório também identifica a permanência de índices alarmantes de violência de gênero, com registros de feminicídios em todas as regiões do país e persistência da impunidade. Pessoas LGBTI continuam sendo vítimas de agressões motivadas por racismo e lgbtifobia, sem que haja garantia de proteção estatal suficiente.
“A Anistia Internacional apela ao Brasil para que adote medidas efetivas de responsabilização pela violência policial, avance urgentemente na demarcação dos territórios indígenas e quilombolas, enfrente a crise climática com ambição compatível com sua responsabilidade histórica e garanta, sem discriminação, os direitos humanos de toda a sua população”, pede a entidade.