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Empresários que financiaram ditadura têm origem em famílias escravistas

Investigação mostra que 40 dos 62 empresários ligados à ditadura descendem de famílias ligadas à escravidão

27/04/2026 às 23:26
Por: Redação

Pelo menos dois terços dos empresários apontados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores do regime militar brasileiro eram descendentes de famílias envolvidas com a escravidão no país.

 

O levantamento, realizado a partir do capítulo que detalha a participação civil no regime militar, identificou que, dos 62 empresários listados pela CNV, 40 possuem ascendência ligada a antigos senhores de escravos. A apuração foi possível graças ao rastreamento de documentos como certidões de nascimento, atestados de óbito e registros em livros de batismo, além de bases genealógicas, como o Family Search.

 

Dentre os principais sobrenomes identificados estão os da família Guinle de Paula Machado, ex-proprietária do Porto de Santos; Batista Figueiredo, que inclui membros como o último presidente militar e um vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo; além dos Beltrão, de Pernambuco, cujo representante Hélio Beltrão foi executivo do Grupo Ultra e ministro do Planejamento na gestão Costa e Silva. A família Vidigal, dona do Banco Mercantil e da Cobrasma, também integra essa lista.

 

Continuidade do poder e raízes escravocratas

 

Ricardo Oliveira, responsável pelo Núcleo de Estudos Paranaenses e especializado na genealogia do poder no Brasil, explica que há um núcleo duro da elite econômica do país, remanescente desde o período colonial e presente em várias regiões.

 

“Quando a gente volta algumas gerações, às vezes um avô ou bisavô, de quem nasceu em 1950, você já está no senhoriato escravista das suas regiões.”


 

Para o estudo, só foram considerados os empresários que tiveram seus laços familiares comprovados documentalmente. O cruzamento de informações permitiu identificar a presença de famílias tradicionais, como os Bueno Vidigal, entrelaçadas por laços de sangue com outras famílias influentes, como os Bueno e os Vidigal.

 

Modelo econômico da ditadura e extração de riquezas

 

Edson Teles, professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), destaca que a ditadura foi marcada por uma lógica de extração, diretamente ligada ao histórico escravocrata nacional.

 

“Extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva.”


 

Teles estabelece relação entre o modelo econômico e a estrutura escravista, em que não apenas os recursos naturais são explorados, mas também os trabalhadores. Segundo ele, utilizar a força de trabalho sem respeitar direitos ou dignidade humana configura práticas análogas à escravidão, incluindo desde a violação direta de direitos até formas graves de violência.

 

Edson Teles coordenou o maior estudo nacional sobre as conexões entre empresas e o regime militar, concluindo que a aliança entre o poder econômico e o aparato repressivo tinha como alvo principal os trabalhadores.

 

“A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no mês de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados.”


 

Marco Antônio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp, aponta que, dois anos após o golpe, o salário mínimo perdeu metade de seu poder de compra devido à política de indexação desvantajosa diante da inflação, que já era elevada no período.

 

De acordo com dados do IBGE, a desigualdade de renda também aumentou: enquanto em 1960 os 5% mais ricos detinham 28% da renda nacional, em 1972 esse grupo já concentrava quase 40% da renda.

 

Mobilidade social e permanência das elites

 

O predomínio de famílias tradicionais por várias gerações no topo do poder revela o baixo nível de mobilidade social no Brasil. Segundo relatório da OCDE, uma pessoa nascida em situação de pobreza leva, em média, nove gerações — aproximadamente 300 anos — para alcançar a classe média no país. O Brasil, ao lado de Colômbia e África do Sul, está entre os países com maior imobilidade social.

 

“Para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias.”


 

Trajetória da família Bueno Vidigal e influência no regime

 

Buscando compreender como se perpetuam as desigualdades, a reportagem investigou a família Bueno Vidigal, que atendeu a três critérios: exerceu influência política e econômica durante a ditadura militar, atuou em múltiplos setores — indústria, serviços e sistema financeiro — e participou em diferentes formas de apoio ao regime, incluindo financiamento de práticas repressivas.

 

Gastão Vidigal, patriarca do clã no início do século XX, fundou a Cobrasma, empresa de destaque no setor ferroviário, e o Banco Mercantil, que já foi o maior banco privado do país. O comando da Cobrasma passou do fundador para o filho, Luís Eulálio Bueno Vidigal, e depois para o neto, Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil, presidido por Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, permaneceu sob controle da família até sua venda ao Bradesco, após a morte do dirigente em 2001.

 

Condições de trabalho e repressão na greve de Osasco

 

Relatórios históricos apontaram que, durante o funcionamento da Cobrasma, as condições de trabalho eram precárias e próximas de situações de escravidão, conforme registros localizados pela historiadora e professora da Unifesp Cláudia Moraes de Souza junto ao Ministério do Trabalho.

 

“Não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório, o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, ligadas à higiene e à segurança do trabalhador.”


 

Nesse ambiente, a Cobrasma foi palco de um importante movimento operário: a greve de Osasco, em 1968. Foi nesse contexto que empresários solicitaram a presença do Exército para reprimir trabalhadores em greve dentro da fábrica.

 

“É na greve que a gente enxerga claramente, os empresários chamando Exército brasileiro para atuar como repressor dentro da fábrica.”


 

Ao todo, aproximadamente 400 trabalhadores foram detidos durante a greve, evento considerado desencadeador do Ato Institucional número 5 (AI-5), decretado cinco meses depois, que fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos parlamentares, impôs censura à imprensa e proibiu a concessão de habeas corpus.

 

Financiamento empresarial à repressão e Operação Bandeirantes

 

A Operação Bandeirantes (Oban), criada meses após o AI-5, tornou-se um dos principais núcleos de tortura do regime, servindo de base para os DOI-CODIs, implantados em dez capitais a partir de 1970.

 

Esses organismos foram financiados por empresas nacionais e estrangeiras, incluindo o Banco Mercantil, de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal. Além disso, havia um sistema de recompensas para a captura de opositores, patrocinado por empresários.

 

“Fizeram uma parceria com o empresariado para fazer uma caixinha de premiação. Cada um que era capturado tinha um valor a cabeça. O Capitão Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, a cabeça dele valia dólares 750 mil. Um ano depois, quando foi assassinado, valia um dólares 1,5 milhão.”


 

O jornalista Ivan Seixas, preso e torturado aos 16 anos junto com o pai no DOI-CODI de São Paulo, relata que sua própria prisão foi recompensada. Segundo ele, um carcereiro lhe contou ter recebido dólares 300 pela captura dele, adolescente na época. Para Seixas, esse mecanismo fortaleceu setores militares mais radicais e ampliou a duração do regime.

 

A família Bueno Vidigal também liderou o Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), que desenvolvia estratégias para adaptar indústrias à produção de materiais militares. A Cobrasma foi acusada de fornecer veículos blindados para uso policial em ações de repressão a protestos.

 

Em retribuição ao apoio ao regime, empresários tiveram acesso a incentivos fiscais, contratos públicos e empréstimos bilionários. No auge, a Cobrasma atingiu faturamento anual próximo de dólares 470 milhões.

 

Segundo Edson Teles, os benefícios eram viabilizados por bancos estatais. O BNDE, atual BNDES, liberava grandes empréstimos a empresas apoiadoras do regime, por vezes em condições econômicas excepcionais e fora das normas praticadas pelo Estado em situações convencionais.

 

Herança familiar e persistência de desigualdades

 

Gastão Vidigal nasceu em 1889, descendente de família nordestina com elevado prestígio social, e se casou com Maria Amélia Pontes Bueno, proveniente de um dos clãs mais tradicionais de São Paulo, os Buenos. A investigação da genealogia dos Vidigal identificou, em jornais sergipanos do século XIX, registros de envolvimento com a escravidão: em 1853, um anúncio publicado por Antônio Pedro Vidigal, avô de Gastão, manifesta interesse na compra de um escravo.

 

Outro registro, datado de 1882, aponta a atuação de um Vidigal como avaliador responsável por sobrepreço em uma transação que daria liberdade a uma mulher e seu neto, nascidos teoricamente livres.

 

Pelo lado materno, os Buenos também consolidaram riqueza utilizando trabalho escravo. Maria Amélia Bueno, esposa de Gastão, era descendente de Amador Bueno da Ribeira, capitão-mor da Capitania de São Vicente. Em uma operação bancária do século XIX, Augusto Xavier Bueno de Andrade, avô de Maria Amélia, hipotecou uma fazenda de café em Campinas ao Banco do Brasil, incluindo como garantia 75 pessoas escravizadas, conforme estudo sobre escravidão e hipoteca no Brasil.

 

Hoje, o nome de Gastão Vidigal denomina inúmeros logradouros públicos em todo o território brasileiro, incluindo avenidas, ruas, vielas, praças, um aeroporto e uma cidade no interior de São Paulo.

 

O professor José Marciano Monteiro, da Universidade Federal de Campina Grande, considera essas denominações como formas de manutenção do poder simbólico das elites.

 

“As disputas políticas não se dão tão somente entre os vivos. Elas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida é em homenagem ao meu bisavô. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e, do ponto de vista da representação que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele não tem referências.”


 

Segundo Monteiro, o sistema escravista buscou justamente suprimir as referências familiares dos escravizados: “No caso das pessoas que foram historicamente escravizadas, o que mais tentaram destruir foi exatamente a memória dos seus antepassados. Porque quando você destrói a memória, você não tem mais referência”.

 

Desdobramentos e respostas das famílias envolvidas

 

A Cobrasma encerrou suas atividades em 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, ex-presidente do Banco Mercantil, faleceu em 2001, aos 82 anos, figurando entre os brasileiros mais ricos da época. Em 2019, a família retornou ao noticiário após o Banco Paulista, fundado em 1990 por Álvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gastão, ser investigado na Operação Lava Jato por lavagem de 48 milhões de reais para a Odebrecht.

 

Procurada, a assessoria do Banco Paulista afirmou que Guti Vidigal, presidente da instituição, não é herdeiro direto do financiador da Operação Bandeirantes nem possui vínculo com a Cobrasma. A reportagem também tentou contato com Luís Eulálio Vidigal, dirigente da Cobrasma, para questionar sobre o histórico escravocrata e o envolvimento da família com o regime militar, incluindo a ocupação da fábrica pelo Exército em 1968, o crescimento da empresa durante a ditadura e o fim das operações após a redemocratização. Não houve retorno sobre nenhuma das questões levantadas.

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