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Pesquisa liga infecção por dengue a aumento do risco de Guillain-Barré

Estudo aponta risco 17 vezes maior de desenvolver síndrome neurológica após infecção por dengue

17/04/2026 às 01:09
Por: Redação

Pessoas diagnosticadas com dengue apresentam um risco significativamente elevado de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas seguintes ao início da infecção, de acordo com estudo realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Segundo a análise, esse risco é 17 vezes maior em relação à população geral nesse período. Nos primeiros 14 dias após o surgimento dos sintomas da dengue, a probabilidade aumenta ainda mais, alcançando um índice 30 vezes superior.

 

Os resultados do estudo, publicados em revista científica internacional, apontam que, a cada 1 milhão de notificações de dengue, 36 podem evoluir para SGB. Embora esse número represente uma proporção pequena, os autores do trabalho consideram o dado relevante no contexto das recorrentes epidemias de dengue enfrentadas no país.

 

A SGB é caracterizada como uma complicação neurológica rara e considerada potencialmente grave. Os sintomas típicos envolvem fraqueza muscular, inicialmente nas pernas, podendo progredir para os braços, rosto e, em manifestações severas, levar à insuficiência respiratória. Nessas situações, pacientes podem demandar suporte ventilatório e internação em unidades de terapia intensiva (UTI). O processo de recuperação costuma ser prolongado, podendo durar meses ou até anos, e não é descartada a possibilidade de sequelas permanentes.

 

O estudo destaca que a dengue, atualmente, se dissemina de forma mais acelerada pelo mundo do que qualquer outra enfermidade transmitida por mosquitos. Apenas em 2024, foram registrados 14 milhões de casos globalmente. No Brasil, o número de infectados com suspeita de dengue ultrapassou a marca de 6 milhões no mesmo período. Por isso, mesmo sendo considerada rara, a ocorrência absoluta de SGB relacionada à dengue torna-se expressiva, exigindo preparo do sistema de saúde pública.

 

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram três grandes bases do Sistema Único de Saúde (SUS): registros de internação hospitalar, notificações da doença e os dados de óbitos. Entre 2023 e 2024, foram identificadas mais de 5 mil hospitalizações por SGB, sendo que 89 dessas internações ocorreram após o paciente apresentar sintomas de dengue.

 

Diante desses achados, os autores defendem a inclusão da SGB como possível complicação pós-dengue nos protocolos de vigilância sanitária. Consideram urgente que gestores de saúde pública estejam atentos para o diagnóstico precoce e preparo das unidades de atendimento.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

O levantamento também orienta profissionais das áreas médica, de enfermagem e neurologia a suspeitarem de SGB em pacientes com histórico recente de infecção por dengue — até seis semanas anteriores — e que apresentem sintomas como formigamento ou perda de força nas pernas.

 

Os pesquisadores enfatizam ainda a importância do diagnóstico rápido, já que as opções terapêuticas disponíveis, como imunoglobulina e plasmaférese, têm mais eficácia quando utilizadas logo no início do quadro.

 

“Também é importante incentivar a notificação dos casos de SGB pós-dengue ou informar a vigilância epidemiológica municipal/estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus”, defendem.


 

Atualmente, não existe medicamento antiviral específico disponível para o tratamento da dengue, sendo o manejo clínico centrado na hidratação e no suporte ao paciente. Por esse motivo, os responsáveis pelo estudo frisam que a prevenção é primordial. O combate ao mosquito Aedes aegypti e a vacinação são apresentados como as ferramentas mais eficazes para reduzir tanto o número de infecções quanto de complicações graves, como a SGB.

 

A vacinação contra a dengue é apontada como meio capaz de diminuir substancialmente a incidência da doença e, consequentemente, os casos de SGB associados.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Complicações neurológicas associadas a arboviroses

 

Os pesquisadores ressaltam que a relação entre doenças transmitidas por mosquitos — conhecidas como arboviroses — e manifestações neurológicas já havia sido identificada de forma marcante durante a epidemia de Zika em 2015 e 2016. Naquele contexto, o vírus Zika foi ligado a casos de microcefalia em bebês e a um aumento expressivo de SGB em adultos. Tanto o Zika quanto a dengue pertencem à mesma família viral.

 

A SGB se caracteriza por uma reação do sistema imunológico, que passa a atacar as células nervosas periféricas — responsáveis por conectar o cérebro e a medula espinhal ao restante do corpo. A consequência desse ataque é o surgimento de fraqueza muscular, que geralmente tem início nas pernas, podendo progredir para outras partes do corpo e, em casos graves, comprometer a respiração.

 

A expectativa é que, diante da frequência das epidemias de dengue e da gravidade potencial das complicações envolvendo a SGB, os serviços de saúde estejam capacitados tanto para vigilância quanto para assistência imediata em casos suspeitos.

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