O Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais, deu início às celebrações de seu aniversário de duas décadas neste sábado (25) com a apresentação de três obras inéditas. As novas adições ao acervo incluem "Contraplano", de Lais Myrrha; "Dupla Cura", de Dalton Paula; e "Tororama", de Davi de Jesus Nascimento. Reconhecido como o maior museu a céu aberto da América Latina, o Inhotim abriga uma vasta coleção de trabalhos de artistas brasileiros e internacionais, além de uma flora exuberante.
A diretora artística do instituto, Júlia Rebouças, ressalta que essas três instalações compartilham um elo com a essência do Inhotim: a intersecção entre arte, natureza e educação.
Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente.
Júlia Rebouças enfatiza que as recém-incorporadas criações estabelecem um diálogo com o acervo consolidado ao longo da trajetória do instituto.
São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim.
Situada em um dos pontos mais elevados de Inhotim, a monumental escultura "Contraplano" estabelece uma conexão com o edifício projetado por Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, na capital mineira. Construída com lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, materiais emblemáticos da arquitetura moderna, a obra se estende sobre partes do jardim do museu e da mata circundante, bem como sobre vestígios de cavas de mineração nas proximidades.
O título da obra faz alusão a um espelhamento da paisagem transformada pela atividade mineradora. A artista Lais Myrrha, natural de Minas Gerais, expressou seu desejo de provocar uma reflexão sobre a relação entre a arquitetura e o ambiente natural, o tempo, a montanha e a mineração.
Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante.
Paola Prates, psicóloga de Belo Horizonte, de 29 anos, em sua quarta visita a Inhotim, teve seu primeiro contato com a criação de Lais Myrrha. Ela considerou a obra "muito interessante" por sua localização próxima à mineração, percebendo um forte diálogo com esse contexto. Prates descreveu a experiência como "conforto" e "acolhimento" ao estar dentro da obra, mas, ao mesmo tempo, a visão da mineração "lembra o que ela é capaz de fazer".
A Galeria Mata, uma das primeiras estruturas do Inhotim, acolhe a exposição de longa duração "Dupla Cura", de Dalton Paula. Esta mostra compreende aproximadamente 120 obras do artista brasiliense, que reside e trabalha em Goiânia. A exibição representa o mais vasto conjunto de seus trabalhos já apresentados no Brasil, englobando pinturas, fotografias, vídeos e instalações que abordam temas como ancestralidade, memória e a valorização da cultura afro-brasileira.
A curadora Beatriz Lemos esclarece que o título da exposição faz referência ao "pacto espiritual que a permeia". Segundo a curadora, a dualidade presente, ligada à devoção a São Cosme e São Damião, "manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário".
Dalton de Paula revela que uma das questões que mais o fascina é a meditação sobre a memória.
Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante.
Marcos Soares, engenheiro de som de 40 anos, morador da capital mineira, que já visitou Inhotim seis vezes, foi conhecer o trabalho de Dalton. Ele "curtiu muito os desenhos, as pinturas", destacando a "rica expressão gráfica" do artista e o "interessante" processo de construção de sua arte. Soares afirmou que a exposição "abre uma nova forma de vida" que ele "nunca teria a chance de vivenciar" de outra maneira.
Próxima à obra "Contraplano", encontra-se a Galeria Nascente, que sedia a instalação "Tororama", de Davi de Jesus Nascimento, artista nascido e residente em Pirapora, no norte de Minas Gerais. O ambiente é composto por três pinturas e um vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais. A instalação ainda exibe carrancas esculpidas pelo Mestre Expedito, uma figura proeminente da arte popular, que não criava novas peças há uma década.
De acordo com o curador Deri Andrade, o nome da instalação "Tororama" é uma expressão que surge no conto "A Terceira Margem do Rio", de João Guimarães Rosa, "que aborda a relação do protagonista com um curso d'água".
Andrade detalhou que o trabalho de Davi está "totalmente relacionado ao Rio São Francisco", originado de uma pesquisa focada na imersão de sua família neste rio. Ele descreveu o projeto como "completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora".
Davi compartilhou que sua família é composta por lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.
A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d'água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013. Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador.
Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, irmã de Davi, visitou a obra e sentiu-se remetida a todas as vivências familiares desde a infância.
Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição.
Localizado no município de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, o Instituto Inhotim funciona como uma organização sem fins lucrativos. Sua sustentação financeira provém de doações de pessoas físicas e jurídicas, sejam elas diretas ou facilitadas por leis de Incentivo à Cultura, tanto em âmbito federal quanto estadual, além da receita gerada pela bilheteria e pela organização de eventos.
A concepção do instituto remonta à década de 1980, idealizada pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, e foi materializada em 2006, em uma fazenda com solo ferroso na região. Sua localização estratégica, no encontro dos biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, e as paisagens notáveis que se estendem por 140 hectares de área de visitação, oferecem uma experiência singular que harmoniza arte e natureza.
O acervo do Inhotim é composto por aproximadamente 1.862 obras de mais de 280 artistas, originários de 43 países, expostas tanto ao ar livre quanto em galerias. Este complexo cultural está inserido em um Jardim Botânico que abriga mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, provenientes de todos os continentes.