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MPRJ toma depoimentos de familiares de vítimas após ação policial com 122 mortos

Familiares das vítimas prestam informações ao Ministério Público, que analisa mais de 3.600 horas de imagens para apurar ação policial de outubro de 2025

29/04/2026 às 20:37
Por: Redação

Na terça-feira, dia 28, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), ouviu familiares de pessoas mortas durante a Operação Contenção, deflagrada em outubro de 2025 nos Complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. A operação resultou na morte de 122 pessoas, entre as quais cinco policiais das corporações civil e militar.

 

O atendimento aos parentes foi realizado no quartel do Corpo de Bombeiros da Penha, contando com o suporte das equipes da ouvidoria itinerante do MPRJ. O objetivo principal foi coletar informações dos familiares a respeito das circunstâncias em que ocorreram as mortes durante a ação policial, colaborando para a elucidação dos fatos e assegurando o acompanhamento do andamento das investigações por parte dos interessados.

 

Desde que as investigações tiveram início, o MPRJ adotou uma postura proativa para localizar e contatar as famílias dos mortos, buscando detalhar os eventos ocorridos durante a operação e garantir que todos tivessem acesso às informações sobre o processo investigativo.

 

A decisão de instalar uma estrutura de atendimento nas proximidades do local dos acontecimentos atendeu critérios de facilitação do acesso à justiça e maior efetividade investigativa, já que, segundo nota do MPRJ, o deslocamento até a sede do Ministério Público poderia constituir um obstáculo à escuta dos familiares.

 

“A escuta dos familiares, realizada hoje e no dia 24 de março último, no Corpo de Bombeiros, é extremamente relevante no âmbito da investigação autônoma que vem sendo conduzida pelo Gaesp. A apuração demanda essas informações, para que se entenda quem eram as pessoas mortas durante a operação e se tirar uma compreensão melhor dos fatos”.


 

Conforme detalhou a assistente do Gaesp, Laura Minc, a iniciativa de atendimento visa ampliar a participação de familiares que, por questões como incompatibilidade de agendas ou dificuldades de acesso, não conseguiram comparecer após as notificações emitidas para que fossem até o Ministério Público.

 

O ouvidor do MPRJ, David Faria, enfatizou a relevância do contato com os parentes das vítimas, reforçando que a ouvidoria funciona como porta de entrada dos cidadãos ao MPRJ. Ele afirmou que a equipe esteve presente para apoiar o Gaesp na escuta ativa e fortalecer a aproximação institucional com a população, além de resguardar direitos humanos.

 

O MPRJ ressaltou que, em decorrência da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, foi imposto ao órgão o dever de atuar da forma mais ampla possível para esclarecer fatos relacionados a ações policiais que resultem em letalidade, e que essa diretriz está sendo seguida na investigação da Operação Contenção.

 

Investigações e medidas após a ação

 

A partir do início da apuração independente conduzida pelo Gaesp após a Operação Contenção, foram adotadas diversas medidas. Entre elas está a abertura de Procedimento Investigatório Criminal (PIC) autônomo, o monitoramento em tempo real por meio do plantão de operações e a ativação dos protocolos estabelecidos pela ADPF 635.

 

“Na fase inicial, foram requisitados dados e documentos à Secretaria de Polícia Militar e à Secretaria de Polícia Civil, ouvidos agentes públicos responsáveis pelo planejamento e que exerceram funções decisórias no dia dos fatos, e realizadas perícias próprias e complementares no Instituto Médico Legal”.


 

Além disso, o Gaesp, em parceria com a Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia da Coordenadoria de Inteligência da Investigação (Dedit), elaborou laudos referentes às vítimas da operação e está analisando mais de 3.600 horas de gravações provenientes das câmeras corporais utilizadas pela Polícia Militar durante a ação.

 

No campo da prevenção e do controle externo, foi emitida, em dezembro de 2025, uma recomendação conjunta aos titulares das Secretarias de Segurança Pública, Polícia Civil e Polícia Militar. Essa recomendação tratou da necessidade de editar protocolo conjunto para operações policiais, com orientações sobre redução de riscos, mitigação de danos e contenção da letalidade.

 

Já em março de 2026, o Gaesp/MPRJ reiterou a recomendação às mesmas autoridades, solicitando aprimoramento no planejamento, execução e monitoramento do uso das câmeras operacionais portáteis, com o objetivo de otimizar a eficácia desse recurso tecnológico.

 

Apresentação de denúncias e andamento das apurações

 

Até o momento, o Gaesp e as promotorias de justiça vinculadas à Auditoria da Justiça Militar apresentaram oito denúncias contra um total de 27 policiais militares. As acusações abrangem irregularidades praticadas durante a Operação Contenção, incluindo apropriação de armamento, furto de peças de veículos, invasão de domicílios, constrangimento a moradores, subtração de bens e tentativas de obstrução ou desligamento das câmeras corporais.

 

Desse modo, o MPRJ mantém o compromisso de conduzir investigações autônomas e minuciosas acerca dos episódios registrados na Operação Contenção, buscando detalhar as circunstâncias das mortes e responsabilizar eventuais envolvidos em atos ilícitos durante a intervenção policial.

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