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ONG investe R$ 6 milhões para ampliar monitoramento de costões rochosos

Iniciativa em Arraial do Cabo faz censo marítimo, analisa impacto climático e apoia pesca sustentável

21/04/2026 às 15:18
Por: Redação

Pesquisadores mergulhadores atuam em Arraial do Cabo, localizada na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, utilizando técnicas de observação direta para quantificar e identificar peixes em um dos ambientes marinhos mais preservados do litoral brasileiro. Essa atividade, que eles denominam "censo do fundo do mar", ocorre em águas cristalinas, onde, durante o trabalho, frequentemente são acompanhados por tartarugas marinhas.

 

A profundidade dos mergulhos varia de 7 a 8 metros, com a utilização de instrumentos para delimitar áreas de 20 metros e registrar o número e as espécies de peixes encontrados. Os profissionais, de um modo geral, dominam o reconhecimento das espécies sem depender de catálogos de identificação, contando também com cartelas de cores específicas para avaliar a coloração dos corais, parâmetro fundamental para determinar a saúde desses organismos.

 

Além de Arraial do Cabo, o monitoramento é realizado em intervalos semestrais em regiões vizinhas como Cabo Frio e Búzios, enquanto em Angra dos Reis, na Costa Verde, as contagens ocorrem anualmente.

 

Esse trabalho integra o Projeto Costão Rochoso, promovido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental que atua em colaboração com a Petrobras.

 

Ecossistemas de transição entre mar e continente

 

Os costões rochosos são ambientes situados na interface entre oceanos e áreas continentais, compostos predominantemente por massas rochosas, muitas vezes submersas. Em determinadas localidades, esses costões aparecem como grandes blocos de pedra nas extremidades das praias, com a porção que emerge do litoral coberta por vegetação. Exemplos emblemáticos incluem formações como a Pedra do Arpoador e o morro do Pão de Açúcar, ambos situados no Rio de Janeiro.

 

A importância ecológica dos costões reside no fato de servirem como abrigo e fonte de alimentação tanto para espécies marinhas quanto para aves e organismos da chamada zona de entremarés, áreas que ficam alternadamente submersas ou expostas conforme o ciclo das marés. Entre os habitantes típicos dessas faixas estão cracas, mexilhões, algas e caranguejos.

 

Esses ecossistemas predominam do litoral norte do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo, com alguns fragmentos também presentes na região Nordeste.

 

Monitoramento científico e biodiversidade

 

O Projeto Costão Rochoso, que teve início em 2017 com pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), foi primeiramente desenvolvido na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo. Essa área protegida é reconhecida por sua elevada biodiversidade. Segundo a bióloga marinha Juliana Fonseca, uma das fundadoras do projeto, a riqueza de espécies é explicada pela localização geográfica peculiar de Arraial do Cabo, localizada em um "cotovelo" do litoral, onde ocorre a confluência de águas frias do sul do oceano Atlântico e águas quentes provenientes do Nordeste.

 

“A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam aqui um tempo. Além disso, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade”, descreve ela.


 

Nesse ambiente marinho fluminense, podem ser observados exemplares de espécies também presentes no Caribe. O biólogo e mergulhador Marcos de Lucena destaca que o mar de Arraial do Cabo apresenta diversidade maior que a do litoral nordestino.

 

"Tem uma riqueza muito maior que Fernando Noronha", diz, comparando ao arquipélago de Pernambuco.


 

Função de berçário natural e proteção de espécies

 

Os costões rochosos desempenham papel fundamental como berçário natural, sendo habitat de peixes de pequeno porte que se abrigam nas proximidades das rochas. O censo marinho, acompanhado pela equipe em localidade conhecida como Pedra Vermelha, ocorre em área destinada exclusivamente à pesquisa científica, com acesso controlado mediante licença específica concedida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

 

Além dos peixes, o monitoramento inclui o registro de outras formas de vida, como corais, lulas e polvos. O biólogo marinho Moysés Cavichioli Barbosa, coordenador-geral do Projeto Costão Rochoso, ressalta que já foram identificadas espécies ameaçadas durante as atividades de campo.

 

“Em termos de animais ameaçados, a gente tem muita garoupa, mero, badejo, budiões, raias e tartarugas. Dentro das espécies que a gente trabalha, deve ter pelo menos umas 15 espécies com algum tipo de nível de ameaça. Tem espécies que só ocorrem aqui no Brasil”, diz.


 

Subsídios científicos para manejo sustentável

 

O Projeto Costão Rochoso mantém interlocução com órgãos gestores, a exemplo do ICMBio, para fornecer dados essenciais à definição de diretrizes para atividades como pesca e turismo.

 

“Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos”, exemplifica o biólogo em relação ao budião.


 

Barbosa detalha que essa orientação resulta do conhecimento sobre o ciclo de vida de determinadas espécies, nas quais todos os indivíduos nascem fêmea e, posteriormente, um deles realiza a reversão sexual tornando-se macho — geralmente o de maior porte. Caso o maior exemplar seja pescado, a reprodução anual fica comprometida.

 

“Depois de um tempo, um deles faz a reversão sexual e vira macho. Normalmente o maior. E aí vem o pescador e puf! Mata o maior que tem. Então, naquele ano, aquela reprodução já ficou comprometida”, conta.


 

Entre as recomendações do projeto aos gestores públicos estão a definição de distâncias mínimas para embarcações de turismo náutico, limites de ruído de motores e delimitação de aproximação para mergulhadores em relação às tartarugas marinhas, sem causar-lhes estresse ou risco de fuga.

 

Impacto das mudanças climáticas

 

O monitoramento realizado pelo projeto inclui também análises sobre os organismos presentes nas zonas de entremarés, como algas e mexilhões, cuja sobrevivência é afetada por oscilações extremas de temperatura, especialmente durante ondas de calor.

 

A bióloga marinha Isis Viana relata que as variações súbitas de temperatura têm se tornado mais frequentes, influenciando diretamente a resistência desses organismos.

 

“Tem dias que a temperatura sobe muito, tem dias que baixa muito. Isso afeta essas formas de vida e podem não resistir ao calor”, diz.


 

“A gente chama esses momentos de extremos de calor. São anormais e acontecem com mais frequência por causa das mudanças climáticas, não tem organismos que sobrevivam”, ressalta ela, que conta com sensores nas rochas e boias oceanográficas, ambos captam a temperatura 24 horas por dia.


 

Além disso, o projeto busca respostas científicas sobre a proporção real do ecossistema de costão rochoso ao longo do litoral brasileiro.

 

Regras para uso e proteção dos recursos naturais

 

Em reservas extrativistas, o uso racional dos recursos naturais é obrigatório, de modo a garantir a sustentabilidade e a manutenção dos meios de vida das comunidades tradicionais. Nessas áreas, a pesca artesanal e comercial realizada por moradores locais é permitida, enquanto a pesca industrial está proibida.

 

O gestor socioambiental Weslley Almeida, do ICMBio, afirma que as decisões de manejo da reserva marinha dependem fortemente de dados científicos, razão pela qual a parceria com o Projeto Costão Rochoso é fundamental.

 

“Essa parceria com o Projeto Costão Rochoso vem para subsidiar essas questões”, diz.


 

Ele destaca ainda que o objetivo do ordenamento da reserva é assegurar a continuidade dos recursos naturais para as futuras gerações de pescadores e suas famílias.

 

José Antônio Freitas Batista, pescador da região há 49 anos, relata que a pesca representa o principal sustento econômico de Arraial do Cabo. Para ele, a existência da reserva extrativista é crucial para equilibrar pesca e turismo, evitando a sobrepesca.

 

“Se a gente não tivesse essa preservação, acho que nem o turismo a gente teria, porque o turismo veio como complemento de renda para a gente não atacar diretamente a pesca com todo o vapor e acabar com os peixes”, disse.


 

Batista explica que a pesca impulsiona uma cadeia produtiva local, gerando empregos em fábricas de gelo, oficinas de manutenção de embarcações, reparo de motores, fabricação de redes, anzóis, tarrafas e também no comércio local.

 

Educação ambiental e engajamento comunitário

 

Outro eixo do projeto é a realização de ações educativas para conscientizar a população local sobre a relevância do manejo sustentável dos costões rochosos. Pesquisadores organizam periodicamente encontros em escolas e capacitações voltadas a pescadores e seus familiares.

 

Yago Ferreira, cientista do mar integrante do projeto, ressalta a importância de aproximar a sociedade do ambiente marinho, enfatizando que só se protege aquilo que se conhece e compreende.

 

“A gente não consegue conhecer o que não entende e não entende o que está longe”, defende.


 

O coordenador Moysés Barbosa acredita que o envolvimento da sociedade amplia a eficácia das ações de conservação ambiental.

 

“Isso é muito mais eficaz do que qualquer conhecimento acadêmico que sai apenas em artigo ou que vai apenas lá para Brasília, para um gestor. Trabalhar com a sociedade é muito mais eficiente”, justifica o coordenador.


 

A administração municipal de Arraial do Cabo informou que está conduzindo estudos técnicos para definir o limite de visitantes em praias e pontos turísticos, a fim de evitar sobrecarga ambiental e aprimorar a experiência dos turistas. A prefeitura acrescentou que atua em conjunto com o ICMBio na fiscalização e implementação de políticas públicas na reserva extrativista marinha.

 

Renovação de parceria e novos investimentos

 

A colaboração entre o Projeto Costão Rochoso e a Petrobras teve início em 2023, como parte do programa socioambiental voluntário da empresa. Em 2026, o acordo foi renovado por mais quatro anos, mediante avaliação a cada ciclo para definição da continuidade. O investimento previsto para a nova fase totaliza seis milhões de reais.

 

A gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, enfatiza que as parcerias da empresa buscam integrar objetivos ambientais e sociais, promovendo o turismo de base comunitária, a inclusão da comunidade local e a pesca sustentável, sem estabelecer antagonismo entre conservação ambiental e atividades econômicas.

 

“Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável, tirando uma visão de que a conservação estaria competindo com alguma atividade econômica”, diz.


 

“Na verdade, para a população, elas podem andar juntas e uma contribuir com a outra”, completa Ana Marcela.


 

*A reportagem e as imagens fotográficas foram realizadas a convite da Petrobras, parceira do Projeto Costão Rochoso.

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