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Pesquisadores investigam origem de tartarugas de Arraial do Cabo

Iniciativa realiza exames e coleta DNA para traçar rota das tartarugas-verdes que frequentam a região.

21/04/2026 às 15:58
Por: Redação

Em um cenário de mar tranquilo e céu limpo, mergulhadores utilizando caiaque adentram o mar da Praia do Pontal, situada na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, localizada na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Ao atingirem uma distância aproximada de 200 metros da margem, um dos mergulhadores submerge e retorna à embarcação trazendo consigo uma tartaruga marinha. Pouco depois, outro animal é capturado através do mesmo método.

 

Essas capturas, realizadas sob o olhar atento de pescadores e banhistas, não têm caráter predatório. O procedimento integra uma ação de monitoramento da saúde das tartarugas marinhas, conduzida pelo Projeto Costão Rochoso, iniciativa da Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento. O projeto, apoiado pela Petrobras, visa reunir dados científicos que contribuam para a preservação e recuperação das áreas de costões, regiões de transição entre o oceano e o continente.

 

O desafio central do projeto está em determinar a origem das tartarugas que habitam Arraial do Cabo, reconhecido como o trecho do litoral brasileiro com a maior concentração de tartarugas-verdes em áreas de alimentação. Segundo uma das fundadoras da iniciativa, a bióloga Juliana Fonseca, todas as cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil também são registradas na região de Arraial.

 

Análises detalhadas após a captura

Após serem capturadas pelos mergulhadores, as tartarugas são levadas até a areia da praia, onde passam por uma série de procedimentos. De acordo com Juliana Fonseca, cada animal é pesado, medido e tem uma amostra de tecido retirada, uma espécie de biópsia, cujo objetivo é determinar a origem da tartaruga.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora”

 

A identificação da origem permite compreender quais estoques populacionais dependem da região e revela as conexões entre locais de desova e áreas de alimentação. A expectativa de vida das tartarugas monitoradas gira em torno de 75 anos, sendo que parte delas permanece cerca de dez anos no mar de Arraial do Cabo, podendo algumas ficar até 25 anos, período após o qual retornam ao local de nascimento para se reproduzirem.

 

Segundo a bióloga, as tartarugas chegam de pequeno porte à costa fluminense e encontram, em Arraial do Cabo, condições favoráveis para o crescimento.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos”

 

Monitoramento minucioso e uso de DNA

O estudo contempla o acompanhamento da saúde das tartarugas-verdes e das tartarugas-pente em três praias de Arraial do Cabo — Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal — e também na Ilha de Cabo Frio, todas inseridas na reserva marinha. Os pesquisadores avaliam casco, nadadeiras, rabo e até mesmo as unhas dos animais.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”

 

Para identificar cada indivíduo, são utilizadas fotografias analíticas e softwares de computador. A metodologia baseia-se no padrão único das placas presentes na cabeça das tartarugas, que funcionam como impressões digitais.

 

Desde 2018, aproximadamente 500 exemplares já foram registrados, dos quais 80 tiveram material de DNA coletado para análise. As amostras são examinadas em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), e os resultados são aguardados em até seis meses.

 

Comportamento diante da presença humana

Outro estudo desenvolvido pelo Projeto Costão Rochoso busca determinar a distância mínima que as tartarugas toleram em relação à aproximação humana. Conforme relatado por uma mergulhadora da equipe, a facilidade de aproximação desses animais, que são bastante carismáticos, resulta em diversos relatos de assédio, manipulação e remoção das tartarugas da água, o que representa um fator de estresse elevado para esses seres.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”

 

A metodologia consiste em simular aproximações progressivas até notar alterações de comportamento nas tartarugas, possibilitando a obtenção de uma média da distância que pode ser suportada por elas. As informações coletadas subsidiarão a elaboração de um guia de boas práticas para a observação turística de tartarugas marinhas, com potencial de aplicação não apenas em Arraial, mas também em outras áreas do Brasil e do exterior.

 

No momento em que ocorrem as ações de pesagem, mensuração e coleta de tecido, é comum a presença de banhistas, incluindo crianças, que se aproximam para observar e fazer perguntas, como se os animais estivessem doentes. Os membros do projeto aproveitam essas ocasiões para explicar aos presentes a natureza conservacionista do trabalho. Uma sinalização instalada próxima ao local dos procedimentos, na orla da praia, informa de forma clara sobre a proibição de contato físico com os animais marinhos.

 

Regras e autorizações para capturas

Segundo a pesquisadora Isabella Ferreira, a realização das capturas exige formação específica em áreas como veterinária, biologia ou oceanografia. Além do conhecimento técnico, é necessário obter autorizações tanto do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, quanto do Projeto Tamar, criado em 1980 e reconhecido mundialmente como referência em conservação marinha.

 

Conforme detalhado pela pesquisadora, todas as etapas do trabalho, desde a captura até a marcação e fotografia das tartarugas, são devidamente autorizadas. Antes de cada atividade, os responsáveis comunicam os guardas ambientais e apresentam as permissões correspondentes.

 

O deslocamento da equipe de reportagem e de fotografia ocorreu mediante convite da Petrobras, parceira do Projeto Costão Rochoso.

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