Trabalhadores que atualmente exercem suas funções em jornadas de seis dias consecutivos com apenas um dia de folga por semana aguardam com expectativa projetos em tramitação no Congresso Nacional que podem garantir mais tempo para lazer, obrigações domésticas e convivência familiar, incluindo até a possibilidade de realizar pequenas viagens.
A extinção do regime 6x1 se tornou o tema central das mobilizações trabalhistas do feriado de 1º de maio, impulsionando discussões legislativas que podem alterar a rotina de milhões de brasileiros.
Entre os trabalhadores afetados, está Darlen da Silva, balconista de farmácia no Rio de Janeiro há 15 anos, que relata a dificuldade em administrar as demandas da casa e o cuidado com as filhas diante do pouco tempo livre. Segundo ela, a jornada atual não permite o devido descanso, tornando o retorno ao trabalho ainda mais cansativo.
“Tenho duas filhas, então para mim é muito corrida a minha folga. Tenho que fazer tudo dentro de casa, lavar roupa, fazer mercado. Não tenho descanso. Venho trabalhar mais cansada ainda no outro dia.”
Darlen explica que o debate sobre a redução da jornada é frequente entre seus colegas, todos atentos à possibilidade de terem direito a uma folga adicional. Caso o novo regime seja aprovado, ela já imagina utilizar um dos dias para resolver as tarefas domésticas e o outro para descansar ou passear, atividades para as quais atualmente falta tempo.
Ela ressalta, no entanto, que para o benefício ser verdadeiro, a legislação precisa ser respeitada e o limite de 40 horas semanais deve ser mantido. Darlen relata que conhece casos de trabalhadores que, em empresas onde o descanso duplo já foi adotado, tiveram a jornada diária ampliada para 11 horas, o que, segundo ela, não compensa, pois aumenta ainda mais o cansaço.
O garçom Alisson dos Santos, que trabalha há dez anos no setor de restaurantes do Rio de Janeiro sob o regime 6x1, afirma que utiliza suas folgas semanais para resolver pendências pessoais e dos filhos, como consultas médicas e compromissos escolares. Para ele, esse tempo não é suficiente para o descanso efetivo, pois sempre há obrigações a cumprir.
“Num dia você organiza as coisas de casa e, no outro dia, consegue passear com a família. Ou, se você vai direto do trabalho, consegue organizar até uma viagem. Com um dia só não, você não consegue fazer nada.”
Em São Luís, no Maranhão, a cabeleireira Izabelle Nunes, de 26 anos, relata que o assunto não é muito discutido entre os colegas nem no ambiente de trabalho, mas ela apoia a mudança. Izabelle acredita que todo trabalhador tem direito a, no mínimo, dois dias de folga por semana, pois isso contribuiria para os estudos, saúde, lazer e cultura. Ela destaca que a rotina de seis dias trabalhados consecutivos compromete o bem-estar.
“Acho que todos nós trabalhadores temos o direito de ter no mínimo dois dias de folga. Cuidar dos nossos estudos, saúde, lazer, cultura e trabalhando nessa escala a gente só se acaba.”
Izabelle considera que o novo dia livre transformaria a dinâmica familiar, possibilitando mais tempo junto aos parentes e o cumprimento de tarefas domésticas acumuladas.
A professora Karine Fernandes, de 36 anos, também acompanha o tema principalmente pelas redes sociais. Embora não esteja submetida ao regime 6x1, Karine defende a redução da jornada, destacando o impacto positivo na qualidade de vida dos profissionais e das famílias.
“Como mãe, penso em como isso influencia a vivência de crianças que podem ter mais tempo de qualidade com suas mães e pais e como isso tem resultado direto no fortalecimento dos adultos que irão se tornar.”
A extinção da escala 6x1 integra as principais propostas da agenda trabalhista do governo federal e está sendo debatida no Congresso. Entre as iniciativas legislativas, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/19, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes, do Partido dos Trabalhadores de Minas Gerais, prevê que a jornada máxima semanal seja reduzida das atuais 44 horas para 36 horas, com transição gradual de dez anos.
Outra proposta apensada, a PEC 8/25, da deputada Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, defende a implantação de quatro dias de trabalho por semana, totalizando até 36 horas semanais.
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei com urgência constitucional que propõe eliminar o regime 6x1 e limitar a jornada semanal a 40 horas. Esse projeto deve ser votado em até 45 dias, conforme o rito de urgência, ou passa a bloquear a pauta do plenário da Câmara dos Deputados.