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Alice Caymmi lança álbum com releituras de Dorival e visão popular

A cantora busca aproximar a obra atemporal do avô de novas gerações, explorando diferentes gêneros e desafiando críticas sobre a “obra definitiva”.

23/04/2026 às 15:11
Por: Redação

A ideia de apresentar a vasta produção musical de seu avô, Dorival Caymmi, a um público mais jovem já era um desejo de Alice Caymmi há três anos. A cantora buscava a melhor maneira de concretizar esse projeto. A solução encontrada foi criar o álbum intitulado Caymmi, que explora a obra do célebre compositor baiano através de uma variedade de gêneros musicais. Essa iniciativa, de grande responsabilidade, também serviu como um momento para Alice refletir sobre sua própria carreira e suas raízes artísticas.

 

“Meu avô queria ser ouvido, estar na boca do povo. Quando estava fazendo um show gostava quando sabia que vinha a faxineira, o segurança e o pessoal da cozinha assistir. Era aí que se sentia contemplado e amado. A atenção que ele dava era impressionante”, disse Alice Caymmi, destacando que esse é um traço de sua família, que abomina arrogância de artista e a falta de comunicação com a audiência.


 

Ela reforçou que a importância do público é um princípio muito arraigado em sua família. Dorival Caymmi, segundo a neta, sonhava em ser reconhecido como o “feliz autor de Ciranda Cirandinha”, e acabou se tornando criador de canções com um alcance popular equivalente, o que sublinha o caráter acessível de sua obra.

 

Foi com essa perspectiva que Alice Caymmi desenvolveu o álbum, contando com a produção do baterista Iuri Rio Branco, responsável pelo selo Daluz Música. A artista enfatizou que o avô desejava ser percebido dessa forma, e que há muitos anos sua imagem popular não era tão evidente, motivando-a a resgatá-la.

 

Alice expressa convicção de que essa abordagem fará com que o público mais jovem receba positivamente o trabalho, pois entende que Dorival pertence às massas e à juventude. Ela também acredita que parte dos ouvintes mais novos, que ainda não conhecem a obra de Dorival, mas acompanham seu trabalho, podem inicialmente pensar que as músicas são de sua autoria.

 

“Dorival é tão atemporal, tão eterno, tão simples e preciso, tão maravilhoso que muita gente vai ouvir e ver este disco, vai ver Caymmi e pensar ‘é o nome dela’ e não vai se ligar que é um disco em homenagem a Dorival. Vai gostar do disco pelas canções lindas que ele tem”, explicou, acrescentando que, após esse primeiro contato, ficará evidente para esse público que as composições são de Dorival Caymmi.


 

Processo Criativo e Seleção Musical

 

Para evitar que a escolha das faixas se tornasse um desafio, Alice optou por um método divertido durante todo o processo de produção. Ela revelou que, de modo geral, sua principal intenção ao lado de Iuri era se divertir, o que lhes permitiu abordar a obra de seu avô de forma totalmente descontraída, inovadora, alegre e espontânea.

 

A cantora já tinha em mente a ideia de criar um disco com sonoridade mais “solar” e que abrangesse diversos gêneros musicais. O formato final do projeto foi sendo definido ao longo das sessões de gravação com o produtor. Para Alice, a colaboração em grupo é fundamental, e a dinâmica positiva com Iuri foi crucial, facilitando a seleção das canções progressivamente. Ela ressaltou a excelente sintonia entre os dois no estúdio.

 

Alice elogiou Iuri, descrevendo-o como “um gênio da música, um dos maiores que já vi em ação”, e expressou o imenso prazer em trabalhar novamente com ele.

 

Desafio da Releitura e Transtorno Opositor Desafiador

 

A percepção de alguns críticos musicais de que a obra de Dorival Caymmi é “definitiva” e “pronta” serviu como um estímulo para Alice buscar inovação nas músicas do avô.

 

“É uma coisa que me move muito e essa de ‘não pode’ me comove bastante. Não fui diagnosticada, mas com quase certeza, tenho o que se chama Transtorno Opositor Desafiador, POD. Não posso ver um negócio que não pode, que eu preciso fazer”, afirmou a cantora.

 

Ela completou, “Quando se diz que a obra do Caymmi é irretocável e impossível de se reler e de se refazer, é ai que faço questão mesmo. Sempre soube que em algum momento eu ia fazer isso, só não sabia que ia ser assim”.

 

Destaque para “Modinha para Gabriela”

 

Alice Caymmi considerou a escolha de Modinha para Gabriela como a primeira música a ser lançada um atrativo para as demais faixas do álbum, especialmente por sua popularidade e por ter sido trilha sonora de novela. A cantora aprecia a forma como a personagem se apresenta e se descreve na canção.

 

“É um grito de liberdade feminino muito bonito e também muito delicado e especial. Nessa fase da minha vida me vejo muito nesse lugar. É uma boa música para apresentar um disco e dizer ‘olha eu sou assim. Faz sentido. É uma letra que puxa isso. Uma apresentação”.


 

Outras composições de Dorival Caymmi que receberam novas interpretações no álbum incluem Maracangalha e Dois de Fevereiro.

 

Legado Familiar e Conexão Espiritual

 

Integrar uma família de grande relevância na música brasileira, com nomes como o avô Dorival, a avó Stela Maris, a tia Nana, o tio Dori e o pai Danilo, não intimidou Alice nem representou um obstáculo para desenvolver seu projeto da forma desejada. Ela optou por não se focar nas possíveis dificuldades.

 

Citando a máxima do rapper Tyler, The Creator — “crie como uma criança e edite como um cientista” —, que advoga pela liberdade criativa, Alice explicou que seguiu essa filosofia rigorosamente.

 

“Eu quis criar como uma criança. Perdi todas as amarras. Eu chamei o Iuri por isso. Ele é muito corajoso. Uma coragem quase inconsequente”, revelou.


 

A conexão de Alice com seu avô é tão profunda que ela sente sua presença constantemente, e isso não foi diferente durante a produção do álbum. Um exemplo dessa ligação foi a escolha de Iuri como produtor, confirmada por um jogo de búzios que apresentou um resultado raríssimo: 28 búzios abertos e apenas um fechado. Esse desfecho, que surpreendeu até o pai de santo, é conhecido como Aláfia-Onan, uma expressão iorubá que significa “caminhos abertos para a paz ou para a prosperidade”.

 

“A gente ficou rindo porque é um jogo raríssimo e eu falei ‘tá bom vô’, porque meu vô é muito presente. Ancestral na minha religião é uma entidade presente na vida da gente. Meu vô fala comigo tranquilamente por meio de várias vias. Toda vez que ele tem oportunidade dá um alô e as pessoas ficam apavoradas”.


 

“O Iuri já viu umas coisas dessas assim acontecendo. Ele sabe que a confirmação é total. Além de a gente já ter trabalhado, ter dado tudo certo e eu já admirá-lo, o vovô aprovou de um jeito louco”, disse Alice, sorrindo.


 

“Até do outro lado ele continua sendo um homem muito simples e de poucas exigências . A única coisa que ele quer é a música”, afirmou.


 

Turnê de Lançamento

 

As futuras apresentações de Alice Caymmi pelo país serão totalmente focadas no repertório do novo álbum. A intenção é promover o disco intensamente, fazendo com que ele seja visto, ouvido e dançado publicamente. A artista acredita que o álbum tem um grande potencial nesse sentido e que a turnê será bem-sucedida.

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