A Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare), reconhecida como a mais antiga do país em funcionamento, recebeu da Prefeitura de São Paulo uma notificação exigindo a desocupação do espaço que ocupa há mais de três décadas na capital paulista.
O imóvel utilizado pela Coopamare localiza-se sob o Viaduto Paulo VI, em Pinheiros, abrangendo uma área de 675 metros quadrados. De acordo com o documento emitido pelo município, a ocupação é classificada como irregular, sob a alegação de invasão do terreno.
A Prefeitura de São Paulo baseou a notificação em um auto de fiscalização produzido em 18 de março, formalizando a exigência de desocupação em 31 de março. A cooperativa teve 15 dias para apresentar defesa e protocolou sua resposta em 2 de abril.
A autorização para uso do espaço havia sido revogada no ano anterior, sob justificativa de proteção ao patrimônio público e menção ao risco de incêndio apontado no local.
Segundo relatos da presidente da Coopamare, Carla Moreira de Souza, após a revogação, a entidade iniciou tratativas com a administração municipal, que teria assumido o compromisso de buscar outro espaço que permitisse a continuidade das atividades da cooperativa.
“Estamos aqui há 37 anos. Aceitamos ir para outro lugar, desde que seja um galpão onde tenhamos condições de continuar trabalhando. A prefeitura nos oferece outro viaduto, mas o espaço é pequeno e não dá para levar nossas coisas", disse.
Carla Moreira de Souza reforçou ainda que a expectativa é permanecer onde estão ou, caso haja necessidade de mudança, que seja oferecido à cooperativa um galpão na mesma região, garantindo condições dignas para o exercício do trabalho, dentro dos direitos dos trabalhadores.
Atualmente, a Coopamare recupera aproximadamente 100 toneladas de materiais recicláveis todos os meses, mobilizando o esforço de 24 cooperados e contando com o apoio de cerca de 60 catadores autônomos.
Por meio de um manifesto integrado a um abaixo-assinado em prol da permanência da Coopamare no bairro de Pinheiros, a entidade destaca que defender a sua continuidade significa sustentar o direito ao trabalho digno, a preservação ambiental e a promoção da justiça social.
O texto do manifesto ressalta que a Coopamare representa um símbolo de resistência, dignidade e sustentabilidade, estruturado pelo empenho de trabalhadores e trabalhadoras, muitos dos quais superaram situações de rua por meio da atuação na reciclagem, encontrando ali uma alternativa honesta de renda e contribuindo diretamente para a cidade.
Além de promover a geração de empregos e renda, a cooperativa presta um serviço considerado essencial, realizando a correta separação e destinação dos resíduos recicláveis coletados em toda a região.
Entre os benefícios destacados, estão o combate à poluição, a diminuição do volume de lixo encaminhado para aterros sanitários, a preservação ambiental e a redução dos custos públicos com coleta de resíduos, segundo argumenta a própria entidade.
O manifesto também enfatiza que a Coopamare surge como referência de organização para milhares de catadores em todo o país, inspirando mobilização e aprendizagem, além de combater o desemprego e a informalidade, ao integrar formalmente trabalhadores historicamente marginalizados.
A Associação Nacional de Catadores/as de Materiais Recicláveis (Ancat) declarou apoio público à Coopamare, destacando seu pioneirismo como a primeira cooperativa do segmento no Brasil e sua relevância enquanto exemplo vivo de organização da categoria, além de ser uma das precursoras na estruturação da reciclagem com inclusão social em âmbito nacional.
De acordo com a Ancat, garantir a permanência da Coopamare no local é um reconhecimento do serviço essencial que presta à cidade, e não um favor. Unicatadores e Movimento Nacional dos Catadores (as) de Materiais Recicláveis (MNCR) também manifestaram apoio à cooperativa.