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Jornalismo: Formação Crítica e Ética são Cruciais Contra IA e Fakes

Presidente da Abej enfatiza necessidade de fortalecer pilares humanos na profissão em meio a desafios tecnológicos e combate à desinformação, em encontro nacional.

23/04/2026 às 13:05
Por: Redação

A crescente influência das tecnologias de inteligência artificial e o desafio da desinformação exigem que as instituições de ensino de jornalismo reforcem uma abordagem educacional fundamentada em valores humanos, pensamento crítico e princípios éticos. Esta é a avaliação da professora Marluce Zacariotti, docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e atual presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej).

 

Para a pesquisadora, em um cenário tão complexo e desafiador, é fundamental que a formação jornalística solidifique esses pilares para garantir a contínua conquista da confiança da sociedade. Marluce Zacariotti participa do 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), que ocorre na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e se estenderá até o dia 24 de abril.

 

Abordagem Transversal na Educação

 

A professora Marluce Zacariotti argumenta que o momento atual da formação e da prática jornalística exige uma profunda reflexão e ações estratégicas. Não se trata apenas de aprimorar conhecimentos técnicos ou de adicionar novas disciplinas específicas sobre inteligência artificial ou combate à desinformação nos currículos.

 

Segundo ela, esses tópicos devem ser integrados de forma transversal em todas as matérias do curso. A intenção é revisitar a pedagogia do jornalismo para resgatar e fortalecer o papel tradicional da atividade profissional, conforme explicou à Agência Brasil.

 

A formação acadêmica, na visão de Marluce, não pode negligenciar o ensino da pesquisa jornalística e das metodologias de verificação de dados. Ela entende que as tecnologias emergentes podem amplificar a eficiência dessas tarefas, mas o papel essencialmente humano na execução do jornalismo deve ser constantemente reforçado.

 

Uma perspectiva crucial é a da extensão universitária, que permite às faculdades transcender seus limites físicos e envolver-se com públicos e parcerias externas, enriquecendo o aprendizado. A presidente da Abej considera que “O jornalismo é um curso, por natureza, extensionista”.

 

Durante o evento em Brasília, ela destacou a importância de que os cursos de jornalismo estabeleçam colaborações para valorizar a função da extensão no processo de ensino e aprendizagem. As instituições de ensino têm a capacidade de auxiliar a pedagogia a compreender o “novo universo” informacional, identificando seus contextos econômicos e políticos. “É preciso entender que a gente vive nesse novo universo. Fechar as portas para isso é estar distante também dos nossos alunos”, afirmou.

 

O aspecto social é, portanto, inseparável da formação. Dentro dessa perspectiva humanística esperada do estudante e do profissional de jornalismo, Marluce Zacariotti defende que a educação não deve tratar as tecnologias como vilãs. Ela aconselha os pesquisadores a não adotarem uma visão apocalíptica diante das inovações.

 

“É preciso olhar e entender que são ferramentas que a gente precisa saber usar da melhor maneira possível. É não negar, mas aproveitar o potencial que elas podem ter para nos ajudar.”

 

A professora também observa que muitos alunos ainda não compreendem como utilizar essas ferramentas de forma eficaz, ressaltando que o diálogo constante com os estudantes é essencial para encontrar soluções adequadas.

 

Transparência Metodológica e Literacia Midiática

 

Marluce Zacariotti enfatiza que o jornalista deve ser preparado com uma forte consciência cidadã. Para ela, este é um caminho indispensável para fortalecer a profissão perante a sociedade. É crucial investir em educação e literacia midiática, com o objetivo de esclarecer ao público sobre o funcionamento do ecossistema de comunicação.

 

Nesse contexto, torna-se necessário que as pessoas compreendam as distinções entre o trabalho dos jornalistas e as ações dos influenciadores digitais. “Muitas vezes, as pessoas não sabem se aquilo é uma informação jornalística produzida por profissionais, com visões, abordagens e contextualização do tema”, explicou.

 

A Nova Configuração do Sistema Midiático

 

Os educadores devem considerar que, em face da crescente desinformação, o cenário atual representa uma reconfiguração completa do ecossistema midiático. A professora aponta que os estudiosos agora veem as “big techs” — as gigantes da tecnologia — como as verdadeiras grandes corporações midiáticas, substituindo os veículos de comunicação tradicionais.

 

“Se antes a gente falava de impérios midiáticos, agora lidamos com forças um pouco mais ocultas porque a gente está lidando com algoritmos”, argumenta.

 

Ela descreve um sistema de comunicação onde cada indivíduo se torna um gerador de dados, um ambiente “digitalizado e plataformizado” que exige a primazia da crítica e da ética sobre a técnica. Por essa razão, a formação em jornalismo deve capacitar os futuros profissionais a enfrentar os desafios com responsabilidade, buscando um diferencial significativo. Isso implica “Não reproduzindo, mas produzindo com essas possibilidades tecnológicas”.

 

A Importância da Presença Física

 

A pesquisadora também sublinha que a formação na área deveria dar prioridade aos aspectos presenciais. Ela explica que “O jornalismo é uma atividade coletiva, que exige a troca. É sempre muito difícil imaginar como fazer isso totalmente online”.

 

Da mesma forma, no âmbito profissional, as redações coletivas propiciam discussões mais ricas do que o trabalho à distância. Essa mudança, segundo Marluce, “afeta, inclusive, o perfil do próprio jornalista”, que se encontra cada vez mais restrito à redação e menos presente nas ruas. Tal realidade está, em parte, relacionada às condições de trabalho precarizadas na profissão.

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