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Ceramistas de Maruanum levam tradição do Amapá a exposição inédita no Rio

Mostra reúne 208 peças de cerâmica e destaca tradição de Maruanum, com acesso gratuito no CNFCP até 1º de julho

27/04/2026 às 21:52
Por: Redação

A exposição "Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum" será inaugurada no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), no Rio de Janeiro, no próximo dia 30, a partir das 17h, em parceria com a Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro.

 

Pela primeira vez, peças de cerâmica criadas a partir de insumos do solo amazônico, combinando técnicas e saberes de origem indígena e africana do distrito rural de Maruanum, no estado do Amapá, compõem uma mostra exclusiva fora do território amapaense.

 

O CNFCP, ligado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), está situado no bairro do Catete, zona sul da capital fluminense.

 

A pesquisa de campo para a realização da exposição foi conduzida pela antropóloga Ana Carolina Nascimento, responsável pela coordenação técnica de Pesquisa e Projetos Especiais do CNFCP/Iphan, durante visita a Maruanum em outubro de 2025, acompanhada do fotógrafo Francisco Moreira da Costa.

 

Segundo Ana Carolina, o desejo de promover essa mostra já existia há mais de 15 anos. No entanto, devido à dificuldade de obtenção da matéria-prima utilizada na produção dos objetos de barro e limitações orçamentárias, o projeto só pôde ser concretizado agora.

 

“A louça do Maruanum depende de uma matéria-prima que é de difícil obtenção. Então, por conta da sazonalidade da produção, da obtenção dessa matéria-prima, e também de questões orçamentárias da instituição, a gente demorou a concretizar esse desejo. Mas estamos muito felizes por realizar essa exposição agora”, afirmou Ana Carolina.

 

O processo de produção das louças envolve conhecimentos tradicionais relacionados à biodiversidade amazônica e ao uso de insumos indispensáveis para o ofício, tais como o barro, as cinzas oriundas da queima da casca da árvore caripé ou caraipé (Licania scabra) e a resina vegetal jutaicica, extraída do jatobá (Hymenea courbaril).

 

A antropóloga destacou que a confecção das peças requer atenção a diversas restrições e procedimentos, principalmente no momento da coleta do barro e da queima.

 

O ritual mais relevante no processo acontece após a retirada do barro, quando as mulheres confeccionam pequenas peças e as depositam no local de onde retiraram o material, em oferenda à figura da mãe ou avó do barro.

 

“Agradecem, pedem proteção para a queima e cantam ladrões (versos) de marabaixo”.

 

Tradição e reconhecimento

 

O saber tradicional das louceiras de Maruanum é sustentado por 26 integrantes da comunidade: 20 mulheres, dois homens, duas meninas e dois meninos, residentes em um conjunto de 16 vilas do distrito rural quilombola de Maruanum, que dista 80 quilômetros da capital Macapá.

 

O arqueólogo Michel Bueno Flores da Silva, superintendente do Iphan no Amapá, afirma que o valor cultural desse ofício leva à perspectiva de abertura do processo para reconhecimento do trabalho das louceiras como Patrimônio Imaterial do Iphan, por meio do registro do saber fazer cerâmicas de barro no território de Maruanum.

 

“A solicitação de registro do ofício das Louceiras do Maruanum, protagonizada pela comunidade junto ao Iphan, não apenas assegura a salvaguarda desse saber, mas também reposiciona o Amapá no cenário nacional, evidenciando sua centralidade na produção cultural brasileira e garantindo, além da visibilidade, instrumentos concretos de proteção”, ressaltou Michel Flores da Silva.

 

O arqueólogo destacou a importância de instrumentos para defesa dos territórios de coleta, garantia da transmissão do ofício entre gerações e valorização econômica em sintonia com os sentidos culturais e espirituais da prática.

 

Ana Carolina Nascimento observa que os dois meninos que atualmente produzem louças em Maruanum demonstram grande orgulho pela atividade e podem influenciar colegas e amigos a se envolverem com a tradição, contribuindo para o rejuvenescimento do grupo de artesãos.

 

O Instituto Federal do Amapá (Ifap) mantém, na comunidade, iniciativas de educação patrimonial, ofertando oficinas para transmissão dos saberes das louceiras.

 

“Quem sabe outras crianças comecem também a fazer?”, sugeriu a antropóloga.

 

Memória e saberes de Maruanum

 

No dia da abertura da exposição no CNFCP, está prevista uma roda de conversa às 15h, contando com a participação da mestra Marciana Dias, que, aos 85 anos, é considerada a guardiã do ofício e a mais antiga louceira em atividade em Maruanum.

 

Também participarão do debate a ceramista Castorina Silva e Silva, a pesquisadora Céllia Costa e o reitor Romaro Silva, ambos do Ifap.

 

A mestra Marciana Dias exerce ainda o papel de liderança no grupo de marabaixo — manifestação tradicional de dança e canto no Amapá — e foi responsável pela fundação da Associação de Louceiras em 1992.

 

A pesquisadora Céllia Costa acompanha e desenvolve, desde 2011, atividades de valorização e manutenção da produção de cerâmica de barro em Maruanum, atuando em conjunto com as artesãs locais.

 

A partir de 2016, Céllia passou a investigar estratégias pedagógicas para transmissão do conhecimento tradicional durante seu doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Em 2020, tornou-se agente cultural e de políticas públicas através do Centro sobre Cerâmica do Maruanum, Mulherismo, Decolonialidade, Relações Étnico-Raciais (Cemadere), núcleo de pesquisa sob sua coordenação.

 

O centro viabiliza tanto ações de educação patrimonial quanto políticas públicas para a comunidade de Maruanum.

 

A exposição exibe 208 peças, criadas por 18 louceiros de Maruanum, dos quais 16 são adultos e dois são crianças.

 

As obras estarão disponíveis para aquisição no Ponto de Comercialização Permanente localizado no CNFCP, durante a 216ª edição do programa Sala do Artista Popular, que existe desde 1983.

 

A mostra ficará aberta para visitação até o dia 1º de julho, com a possibilidade de ser levada posteriormente para Macapá e Maruanum.

 

A entrada é gratuita e o acesso pode ser feito de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h.

 

O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e o Museu de Folclore Edison Carneiro localizam-se na Rua do Catete, número 179, no bairro do Catete, zona sul do Rio de Janeiro.

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